As quatro transfigurações da ortodoxia econômica
 
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As quatro transfigurações da ortodoxia econômica
Paulo Nogueira Batista Jr.
Agência Carta Maior, 23 de março de 2004

A "ortodoxia teórica" das principais universidades norte-americanas se transforma na "ortodoxia de galinheiro para consumo popular" - e os brasileiros ficam sem entender nada.
       Desde o ano passado, os petistas estão dando "arrancos triunfais de cachorro atropelado", como diria Nelson Rodrigues (outra vez essa figura inapelável e fatal!). É um quadro realmente patético e pungente. E bastante estranho também.
       Por que "patético"? E por que "estranho"? Vejamos. O Brasil, como sabemos, não é para principiantes. O governo do PT parece determinado a reduzir o petismo a pó. Um turista estrangeiro que por aqui passasse perguntaria, perplexo: Como pode?
       Coloque-se, leitor, na posição de um petista convicto, eleitor fiel, desses que votavam, acreditavam e apostavam em Lula e outras lideranças do PT. Ou, por outra, o leitor talvez seja ele próprio um desses petistas e não precise assim fazer nenhum esforço de imaginação.
       Não estou pensando, é claro, nos "petistas profissionais", naqueles que arrumaram empregos ou sinecuras mais ou menos confortáveis, mas sim na maioria que votou com alguma convicção em 2002 e várias eleições anteriores, e em especial nos que foram às ruas, carregando bandeiras, cartazes, denunciando o "neoliberalismo", a exclusão social e as injustiças da política econômica.
       Esse tipo de petista ficou diante de duas hipóteses igualmente desagradáveis. Primeira: todas aquelas críticas, teses e idéias sustentadas com fervor por mais de duas décadas estavam essencialmente erradas. Representavam, talvez, uma mera fachada na disputa pelo poder. O presidente Lula e seus auxiliares tiveram a sabedoria de abandonar rapidamente essas tolices assim que desembarcaram, vitoriosos, em Brasília. Nessa primeira hipótese, o petista, que acreditou tanto tempo em tanta bobagem, não tem outra saída senão considerar-se um idiota perfeito e acabado.
       Segunda hipótese: as teses não estavam erradas, pelo menos não totalmente. Foi a falta de espinha dorsal das lideranças do PT que levou ao seu abandono. Nessa segunda hipótese, o petista, que acreditou tanto tempo em gente tão desqualificada, não tem outra saída senão considerar-se um idiota perfeito e acabado.
       A situação é mesmo estranha. Quem elogia a política econômica do governo? Lideranças nacionais do PSDB e do PFL, a Febraban, o FMI, o governo dos EUA. E quem a critica? Boa parte dos partidos da base aliada, inclusive o próprio PT, a Igreja, empresários industriais, toda a esquerda e a centro-esquerda, trabalhadores, estudantes, oprimidos. Enfim, todo o espectro de opinião que se opunha ao que estava sendo feito com o Brasil nos tempos de Collor e FHC.
       É o óbvio ululante, escandalosamente ululante. Diante desse quadro, o que faz o presidente?
       Simplesmente o seguinte: inaugura nova fase. Nas últimas semanas, converteu-se em paladino e porta-voz da política econômica. Em longos e quase diários improvisos, defende a orientação da Fazenda e do Banco Central, explicando os conceitos econômicos com imagens acessíveis, de compreensão imediata. Não é tarefa fácil, convenhamos. Joelmir Betting, por exemplo, passou anos e anos aperfeiçoando a técnica, e enfrenta algumas dificuldades até hoje.
       Mas Lula é um caso especial, evidentemente. Um desses improvisos econômicos presidenciais recentes, cronometrado pela imprensa, alcançou a marca de 56 minutos. Na sua ilha, Fidel Castro treme da cabeça aos sapatos, apavorado com a concorrência inesperada.
       Uma coisa é certa: o Brasil está sempre inovando. Tenho meditado muito no que se poderia chamar de "as transfigurações da ortodoxia econômica". É um processo mundial, mas só aqui no Brasil acontecem certos lances que causam no exterior divertida perplexidade.
       A ortodoxia econômica tem a sua hierarquia, solene e hierática como toda hierarquia. O nível mais alto está nas principais universidades dos Estados Unidos. É a "ortodoxia teórica", um pouco distante do mundo real, meio misteriosa, repleta de dúvidas, sutilezas e sofisticações.
       A primeira transfiguração ocorre quando se passa dessa "ortodoxia teórica" para a "ortodoxia prática" do FMI, do Banco Mundial e dos principais governos e bancos centrais. Nessa primeira passagem, já se perde muito. Desaparecem muitas dúvidas e ressalvas: a ortodoxia se transforma em corpo de doutrina, acompanhado de manuais e recomendações "úteis". Uma das versões dessa ortodoxia prática, o chamado Consenso de Washington, produziu um estrago tremendo na América Latina durante a década de 90. Estamos pagando até hoje a conta desse surto de "ortodoxia prática" importada.
       Sem querer, já entrei na segunda transfiguração da ortodoxia econômica. Ela ocorre justamente quando se passa da "ortodoxia prática" para a sua aplicação em países subdesenvolvidos como o Brasil. Chamemos essa variante de "ortodoxia de galinheiro". Os seus praticantes costumam ser economistas locais, treinados (a palavra certa talvez seja "adestrados") em universidade americanas, no FMI e em outras instituições financeiras multilaterais sediadas em Washington. São eternos alunos, sempre ansiosos para "fazer o dever de casa" e receber o endosso dos seus mestres e mentores intelectuais. Mostram-se freqüentemente dispostos a ser mais realistas do que o rei e a aplicar com mais zelo doutrinas, não muito bem digeridas, aprendidas com os "ortodoxos práticos".
       Como se sabe, o governo Lula está infestado de "ortodoxos de galinheiro". Eles ocupam quase todos os postos-chave na Fazenda e no Banco Central, estabelecem o que é possível ou recomendável e vetam, com um olho em Washington e outro nos mercados financeiros, todas as sugestões que fujam ao roteiro absorvido nos seus anos de adestramento.
       A terceira transfiguração da ortodoxia ocorre dentro do próprio Ministério da Fazenda. O titular, político experiente e habilidoso, que não costuma dar bom-dia a cavalo, fica encarregado de dourar a pílula, tornando mais palatáveis as idéias abstrusas da "ortodoxia de galinheiro".
       Chegamos assim a um quarto nível: "a ortodoxia de galinheiro com verniz político".
       O verniz é fundamental. Soltos, os "ortodoxos de galinheiro" fazem barbaridades. Um deles sugeriu, certa vez, que se erguesse uma estátua em praça pública ao ex-ministro Malan. Mantendo o seu proverbial bom-humor, o ministro Palocci teve que correr para apagar o princípio de incêndio provocado pelo ingênuo assessor.
       Infelizmente, o ministro da Fazenda tem um auxiliar nesse trabalho de envernizamento. Trata-se do presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, que se arvora em corrente de transmissão política das explicações da "ortodoxia de galinheiro". Nesse caso, o verniz aplicado é bem defeituoso. Meirelles parece ser um exemplo particularmente grave de um fenômeno conhecido: a inexorável perda de massa cerebral decorrente da longa permanência nos meios bancários. O que o ministro da Fazenda faz, o presidente do Banco Central desfaz em parte, obrigando o primeiro a redobrar seus esforços.
       Não se esgotam aí os trabalhos do ministro Palocci. O presidente da República tem as suas dúvidas e inquietações. Naturalmente, quer saber por que a economia não cresce ou cresce pouco, por que o desemprego continua tão alto, e assim por diante. Aí entra Palocci outra vez, desempenhando a tarefa de explicar ao líder político noções essenciais de ortodoxia econômico- financeira.
       Nesse momento mágico, ocorre então a quarta e última transfiguração da ortodoxia. E assistimos, embasbacados, a "ortodoxia de galinheiro com verniz político" converter-se em "ortodoxia de galinheiro para consumo popular" (nem sei se nesse caso a melhor palavra não seria "transmogrificação").
       Como qualquer presidente, Lula precisa comunicar-se com a população. E o faz como ninguém. Com talento de artista, transforma aqueles conceitos áridos e antipáticos da ortodoxia em lições básicas e intuitivas de economia popular.
       Um pequeno problema: se a humanidade tivesse se contentado com a intuição imediata, estaríamos acreditando até hoje que o Sol gira em torno da Terra. Muitos dos resultados mais interessantes e importantes da ciência, até de uma ciência pobre como a economia, são contraintuitivos.
       Mas estou me estendendo demais. Eis o que queria dizer, e com isso termino: o presidente da República é inegavelmente muito inteligente. A sua trajetória de vida é objeto de admiração e curiosidade no mundo inteiro. Dispensa, portanto, que lhe expliquem o óbvio.
       Nós, brasileiros, é que não estamos entendendo nada.

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