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Segunda-feira, Junho 23, 2003
ECONOMIA NA TELVISÃO: DISCUSSÃO SOBRE O MERCADO OU APOLOGIA A ELE?
O jornalismo especializado feito em televisão é muito variado, atendendo aos mais diversos tipos de pessoas. Há desde notas e notícias superficiais apresentados em programas como o Fantástico, Jornal Hoje, Jornal Nacional na Rede Globo de Televisão e vários outros jornais diários que perambulam pela televisão e vários tipos de canais até programas como Conta Corrente na Globonews, Espaço Aberto Economia, também na Globonews, Bom Dia Brasil na Rede Globo e o Jornal da Record, que aprofundam mais nas notícias e procuram explicar fatos com mais clareza.
Os noticiários superficiais
No caso do primeiro tipo de programa citado, onde economia normalmente abocanha um ou dois blocos juntamente ou não com o noticiário de política, é buscada a apresentação dos fatos como entretenimento. Utilizando de recursos gráficos e esquemas explicativos, a notícia de economia é passada de uma maneira simples e direta, mas perigosamente superficial. Fala-se, por exemplo, qual foi o resultado do pregão da Bovespa ou o balanço comercial da semana, mas não há a menor intenção de explicar qual resultado isso tem. Mesmo que se diga que a bolsa cair é ruim, não se fala qual a causa disso (principalmente se a causa é estrutural) e em que medida a sociedade e o resto da economia saem afetados. Dessa maneira, dificilmente será fácil a um telespectador desapercebido compreender a situação, ao invés de apenas absorver informações amorfas.
O jornalismo realmente especializado em economia
Já o outro grupo de programas de que se falou caminha por uma estrutura contrária. Neles, o fato econômico transformado em notícia se torna meramente pano de fundo para que se discuta a economia. Dessa forma, se no outro tipo de programa o público é mais leigo e amplo, neste se busca uma maior primazia no tratamento da informação para um público, digamos, mais seleto.
No caso do programa Bom Dia Brasil, que possui um noticiário de economia bastante completo e longo, tem como maior chamativo as opiniões e análises de seus convidados e de Miriam Leitão. O jornalismo proposto é muito mais aprofundado. Se fala-se da queda da produção industrial, por exemplo, imediatamente haverá uma ou mais pessoas para comentar esse fato, analisar e até opinar, além de uma notícia e/ou reportagem que sempre são colocados em algum momento, normalmente no início.
Da mesma maneira, o Jornal da Record, com Boris Casoy, que prima por um conteúdo crítico, os fatos econômicos têm bem menor importância que as análises feitas sobre eles. Seguindo o sistema e o ritmo do resto do telejornal, onde Boris Casoy utiliza de sua enorme credibilidade (uma das maiores do país) para opinar o tempo todo - sendo esse o charme do programa -, na parte de economia, Salette Lemos faz a sua análise e crítica sobre a conjuntura econômica em relação aos fatos do dia (baseada em um currículo extenso, que inclui quatro especializações na área de economia e duas vezes o "Prêmio Esso de Jornalismo").
Os programas "Conta Corrente" e "Espaço Aberto - Miriam Leitão", ambos da Globonews, trazem ainda mais gritante esse aprofundamento jornalístico crítico em economia. Especializados apenas em economia (eventualmente o programa da Miriam Leitão trata de outros temas, mas sempre recorrendo à economia), prezam quase que somente análises, reportagens esclarecedoras e opiniões. Na verdade, principalmente no caso da segunda edição do Conta Corrente, já se pressupõe que o telespectador já sabe quais são os fatos econômicos do dia e quer apenas saber o que eles significam. Faz-se dessa maneira entrevistas variadas, reportagens, análises e comentários, prezando a se dar uma interpretação plausível ao telespectador.
Mas que importância tem a economia para mim?
Por infantil que possa parecer essa pergunta, ela pode se apresentar bastante complexa. Primeiramente, o que seria a economia? Um sistema de produção e troca de todo tipo de mercadoria, produto, serviço, pessoa, etc. Importante para qualquer pessoa, evidentemente, isso é. Mas será que a economia como se apresenta atualmente é boa?
Por mais contundente que possa parecer qualquer argumento, reacionário ou não, factual ou não, o que ocorre é que toda sociedade atual é bastante injusta, em todos os sentidos, desde a educação e saúde até a capacidade de compra. E a economia, que abrange todos os setores da sociedade, participa - e muito - desse problema.
Sendo assim, o sistema econômico é bom? Traz benefícios ou só atrapalha? Se for bom, é para quem? Se for ruim, é inevitável?
Perguntas essas que podem soar até como radicais (principalmente na atual conjuntura política brasileira) são necessárias a qualquer pessoa que se depara com um mundo regrado pelo imperativo econômico: é preciso analisar esse tipo de questão para se situar melhor no mundo, qualquer que seja a opinião da pessoa.
Sendo assim, seria natural que programas jornalísticos especializados em economia abordassem esse tipo de coisa, ou seja, discutir a importância, a sustentabilidade e os efeitos sociais da economia e da dinâmica que a rege. Certo? Erradíssimo. É incrível, mas parece que é proibido tocar nesse tipo de questão em todos os programas jornalísticos. Quanto a isso, é feito o mais absoluto silêncio. Mesmo telejornais mais críticos como o Jornal da Record não procura abordar esse tipo de questão. Os da Globo, então, nem se fale.
Todos os programas que praticam jornalismo voltado para a área econômica analisados, aprofundados ou não, têm em comum o fato de partirem do pressuposto de que o modelo econômico vai bem, obrigado. Mesmo que se discuta, bem ou mal, um fato econômico, não se discute o modelo neoliberal vigente. Parece um culto ao mercado. Um processo único de apologia desmedida que tende a mistificar uma das faces da sociedade - a economia.
