A transição no jornalismo econômico
 
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A transição no jornalismo econômico
Carlos Alberto Sardemberg

Carlos Alberto Sardenberg é repórter especial da Folha de S. Paulo e comentarista econômico da Rádio CBN. Dirigiu o jornalismo da Rede Bandeirantes de Televisão e a sucursal do Jornal do Brasil em São Paulo. É autor dos livros Aventura e Agonia nos Bastidores do Cruzado e Jogo Aberto.
Palestra proferida em 24.11.95.

O moderno jornalismo econômico brasileiro é contemporâneo do período da ditadura de 1964-1985. Claramente ele se formou e se estruturou nessa época, por razões, estruturais e históricas.
       O regime militar tinha como doutrina básica a busca do desenvolvimento. Pregava-se que o País precisava ter determinadas condições políticas - as de um regime autoritário-, para que isso permitisse um crescimento acelerado. Também se dizia que não era possível ter uma prática democrática ou um país civilizado, de primeiro mundo, sem uma base econômica sólida. Não era uma teoria brasileira, mas espalhada pelo mundo a fora, pois houve governossemelhantes em diversos outros países, todos com a mesma idéia e o mesmo objetivo básico. Isso criou uma demanda concreta para o jornalismo, mesmo porque, se olharmos a história do regime militar, veremos que ele teve dois grandes êxitos nessa área.
       O primeiro esteve representado pelos processos de ajuste da economia e de reforma do setor público, no governo Castelo Branco. O setor público, que se deteriora ao longo do tempo, foi totalmente remodelado e tornou-se muito mais eficiente e competente. Criaram-se o Banco Central, o Banco Nacional da Habitação, o sistema de controle das estatais, o orçamento monetário.... Imprimiu-se um novo caráter ao BNDES. Enfim, houve uma série de medidas importantes, que que arrumaram e modernizaram o setor público. O segundo sucesso, obviamente, ficaria patente no milagre econômico e nas taxas de crescimento de 14% ao ano, que colocavam o Brasil na ponta dos países que se desenvolviam.
       Podemos dizer que ainda no governo Castelo Branco se deu o primeiro combate bem-sucedido contra a inflação, com um programa econômico que a derrubou de quase 100% para a casa dos 20% ao ano. Ele acarretou uma certa recessão durante quase dois anos, mas em seguida retomou-se o desenvolivimento. A iniciativa também levantou críticas, muito parecidas às que o Plano Real está sofrendo nesse momento - principalmente, que o governo impõe ao País sacrifícios muito pesados para conter a inflação. O maior opositor da época não estava na esquerda. Era Carlos Lacerda, que cunhou uma frase espetacular sobre a política econômica do então ministro Roberto Campos: A política econômica de Roberto Campos mata igualmente os ricos e os pobres. Os pobres, de fome; ps ricos, de raiva. É uma das melhores definições de política recessiva que conheço.
       A vantagem de estarmos adiantados na história é poder fazer retrospectivas e ver qual foi o ciclo que aconteceu de fato: o ajuste, a recessão e a formação de base para uma retomada acelerada do crescimento econômico. Não nos interessa propriamente a história da economia brasileira, mas notar que esses fatos criaram uma demanda para um jornalismo mais apurado nessa área. Ao mesmo tempo, a censura que se exercia no regime militar era muito mais branda no jornalismo econômico, até porque a maioria das notícias era positiva. Só depois de um certo tempo surgiu o debate sobre a questão da distribuição de renda, que começou a piorar, apesar do desenvolvimento acelerado. Mesmo assim, foi essa base econômica que permitiu ao regime militar ter o apoio da sociedade.
       De todo modo, esse jornalismo tinha uma tendência para ser mais oficialista, porque havia um ambiente positivo e a censura lhe era mais branda. Apesar disso, vários jornais tiveram a capacidade delevar essa área com qualidade, não raro usando linguagem meio cifrada, ajudando a dar origem ao economês. E o economês tem dois sentidos, ambos negativos, significando escrever mal, errado, ou então com tal pureza e requinte técnico que ninguém entende. Freqüentemente, os jornalistas se valiam dele até para escapar da censura. Se alguém escrevesse que o regime estava baseado numa política de arrocho salarial, provavelmente seria censurado.Mas, se dissesse que estava baseado na contenção do fator trabalho, passava. É a mesma coisa, mas a segunda alternativa é inteligível a um público mais restrito.
       O jornalismo econômico cresceu porque atendia uma demanda bastante considerável: o crescimento econômico e uma mudança nas bases econômicas do País. Da mesma forma, esteve presente durante os momentos de isntabilidade. O Brasil mergulhou numa crise prolongada a partir da década de oitenta - chamada década perdida. E o que aconteceu com o jornalismo econômico? Continuou sendo notícia, embora de um modo inverso. Paramos de falar de crescimento para falar de estagnação, recessão e de um personagem novo, a inflação. Aquela conhecida, desde 1964, era brincadeira, ridícula, de 100% ao ano. Nesse novo período, este chegou a ser quase o índice mensal - 80% no último mês do governo Sarney. Depois, 45% ao mês era o normal.
       A crise econômica, caracterizada por uma inflação ascendente, crônica, também criou uma demanda importante. E o jornalismo econômico soube atendê-la de uma maneira que julgo muito eficiente. Sobretudo se compararmos as páginas econômicas dos jornais brasileiros com as de outros países.

       Jornalismo de serviços
       Numa visão retrospectiva a cobertura brasileira divide-se em duas partes essenciais: prestação de serviços e informações sobre planos de ajuste econômico.
       Jornalismo de serviço são aquelas páginas Sua Conta, Seu Dinheiro, Seu Bolso, Dinheiro Vivo. Essa modalidade desenvoveu-se de uns anos para cá, quando se tornou importante driblar a inflação. No momento em que ficar com dinheiro parado no bolso significava perder 1% ao dia, alguém tinha que dizer o que fazer com esse dinheiro. E o jornalismo respondeu a isso com essas seções, dizendo de quanto estava sendo a desvalorização, qual o melhor dia para aplicar em poupança, se o fundo de comodities dá mais que o FIF, e toda essa profusão de itens. O jornal brasieiro de hoje, mesmo com inflação nde 1,5 % ao mês, ainda tráz páginas e páginas de índices, avaliação dos fundos, evolução de cada aplicação, contas, se é melhor pagar, se é melhor comprar à vista.
       Evidentemente, esse tipo de cobertura já vai se tornando extemporâneo, porque não tem muito a ver com o ambiente de hoje. Sugerir como aplicar o dinheiro hoje ou amanhã significa uma diferença de grandezas decimais. Para a classe média, para quem é pequeno ou médio poupador, acaba ficando mais caro ir ao banco, pagar o estacionamento ou até mesmo fazer uma simples ligação telefônica. Mas o senso de estabilidadde ainda não passou para a sociedade. Assim, ainda é aceitável que se abordem tais coisas, já que temos apenas um ano e meio de Plano Real e é evidente que uma cultura alimentada durante tanto tempo não morre rapidamente.
       Quanto à cobertura de planos, pacotes, pacotinhos, conjunto de medidas, todos estão bastante acostumados com ela. De repente, vai se desenhando uma crise, e o governo baixa algo cujo nome varia, com o objetivo de atacar determinado problema. E reportá-lo tornou-se quase que uma especialidade da imprensa. Esse papel às vezes é visto como se a imprensa estivesse sendo colaboradora cívica dos governos. Acho que a restrição pode caber às televisões, normalmente mais condescendentes. Mas não se pode avaliar dessa forma uma das funções cruciais da imprensa nos momentos de planos e pacotes: explicar o que está acontecendo, contar direito, detalhar o seu propósito. As pessoas confundem essa atuação com estar a favor do governo. E não é bem assim.

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