O Brasil está prestes a viver uma situação inédita para várias gerações: um período longo marcado por um crescimento econômico sólido, consistente e sustentável. Algo que verdadeiramente não acontece há décadas.
Nada semelhante ao concentrador crescimento do bolo no Milagre Econômico dos governos militares; nada tênue como o crescimento provocado pelo Plano Cruzado, destinado a dar vitória eleitoral ao PMDB no governo Sarney; nada absurdo como as conseqüências do confisco de Collor; nada artificial como a realização dos sonhos de consumo da classe D no início do Plano Real de FHC; nado efêmero como a bolha de crescimento inflada pelo câmbio fixo também no governo FHC.
Diante dessas perspectivas, vale refletirmos: nós, jornalistas, estamos preparados para cobrir uma fase de crescimento sustentado? Em outras palavras: temos a competência para descobrir as verdadeiras pautas que podem refletir uma fase que muitos nunca viveram de verdade?
Eu mesmo cresci em redações cobrindo economia com base naquelas pautas burocráticas e voltadas aos interesses das fontes: "vamos ouvir a CDL e ver perspectivas de vendas para o Dia das Mães"; "vamos conferir se o preço das flores está alto nesse feriado de Finados"; "vamos ver as expectativas de vendas de Natal com a injeção da primeira parcela do l3.º" etc. etc.
Sair disso não é fácil, mas é instigante e fascinante. Não tenho fórmulas mágicas nem sei o caminho das pedras, mas acho que a mídia precisa ser mais criativa para essa "cobertura do crescimento". A começar, por exemplo, pelas pautas sobre a qualidade do lixo e o padrão de consumo das pessoas.
Acho que é superinteressante, por exemplo, descobrir que uma família de baixa renda está consumindo um guaraná "de marca", ao invés daqueles xaropes baratíssimos com nome de refrigerante; que o casal está deixando de fazer piquenique na represa da Petrobrás para passar as férias em Guarapari; que o vendedor de cachorro quente trocou a carrocinha por um Fiat Uno; que aquela casa lá do morro tem churrasco domingo, pois todos que moram lá conseguiram emprego; que a viúva deixou de ir a Aparecida no 12 de outubro e se incorporou a uma excursão a Roma; que...
Evidentemente que essa fase de recuperação não vai acabar com a miséria do pais, nem garantir emprego para todos. Mas, ainda assim, serão tantas histórias de vida, tantos detalhes, tantos acontecimentos que irão acontecer na rotina de todos que seria uma pena continuar a ouvir apenas o presidente da CDL, da Fiemg, da Ceasa, o Governo etc. etc.
Quem costuma ler esse espaço sabe que insisto sempre numa questão: a importância de valorizarmos o saber e a vida do cidadão comum. Conseguir fazer dele uma pauta interessante. Sinto que quase ninguém na mídia está preocupado com isso. Mas sempre descubro "exceções". A mais recente se chama "Por um fio", o novo livro do Drauzio Varella. Ele demonstra, com a costumeira simplicidade e competência. que é possível extrair do ser humano e de sua sina as melhores pautas do dia.
*Jornalista e professor de Jornalismo da PUC Minas