Será que temos competência para cobrir o crescimento econômico?
 
» Artigo

O pequeno artigo tem implicações a mais por ser escrito por um professor de curso de comunicação, provavelmente de disciplina relacionada com o jornalismo econômico, e por ser publicado em jornal de sindicato de jornalistas profissionais. Já no título lança dúvidas que não teriam sentido, numa época em que a grande imprensa tem suas editorias dedicadas ao assunto, com profissionais especializados.
Mas a postura ideológica também aí dá as caras. A competência que o articulista espera deve ser a que endosse e destaque o crescimento econômico que o país estaria vivendo. Competente seria aquele jornalista e aquela matéria que seguissem essa linha.
No corpo do texto, em arrazoado puramente ideológico, tece algumas considerações sobre esse crescimento econômico, praticamente considerando-o consolidado, "algo que verdadeiramente não acontece há décadas".
Sugere que os jornalistas façam reportagens com o povo, já que acha "que a mídia precisa ser mais criativa para essa 'cobertura do crescimento'". Para ressaltar a necessidade de o jornalista ouvir o cidadão comum e como está consumindo nessa nova era, destila alguns preconceitos de classe, o que dá bem a medida de como os jornalistas atuais se distanciaram realmente da gente do povo. Parece que só agora, com esse pretenso crescimento econômico, os jornalistas deveriam realizar este tipo de cobertura sobre os assuntos econômicos, quando é necessidade de qualquer tempo. É uma constatação do caminho que seguiu o jornalismo atual, esse de linha de montagem, homogeneizado, que se distanciou de segmentos das comunidades, e que já não pratica a reportagem.
O professor-jornalista termina seu artigo lembrando de sua insistência de se valorizar "o saber e a vida do cidadão comum", só que já tinha deixado escapar em linhas anteriores o tratamento preconceituoso e ideológico desse saber e vida. Porque o jornalista já está longe de seus valores, já que sua visão de mundo parte dos valores de uma certa classe média alta e da burguesia, que daria os parâmetros para medir o mundo do consumo do cidadão comum. Houve tempos que o jornalista se identificava com esse cidadão comum, e que não precisava ser exortado ou que tivesse que se esforçar para cobrir qualquer temática "valorizando " o enfoque do cidadão comum.
O exemplo que apresenta, do livro de Drauzio Varella, só reforça esse distanciamento do jornalista das temáticas do povo. Já que Drauzio Varella não é jornalista, e seu livro não é de reportagem.
O choro do professor-jornalista é mais uma constatação do tipo de jornalismo que se está fazendo na atualidade. Por mais que seu artigo levante algumas dúvidas sobre a competência do jornalista econômico para cobrir determinada temática, sua análise tem um part-pris nesse universo que quer criticar.

Será que temos competência para cobrir o crescimento econômico?
João Carlos Firpe Penna*
Pauta n.º 149, setembro de 2004
Jornal do Sindicato de Jornalistas de Minas Gerais

O Brasil está prestes a viver uma situação inédita para várias gerações: um período longo marcado por um crescimento econômico sólido, consistente e sustentável. Algo que verdadeiramente não acontece há décadas.
       Nada semelhante ao concentrador crescimento do bolo no Milagre Econômico dos governos militares; nada tênue como o crescimento provocado pelo Plano Cruzado, destinado a dar vitória eleitoral ao PMDB no governo Sarney; nada absurdo como as conseqüências do confisco de Collor; nada artificial como a realização dos sonhos de consumo da classe D no início do Plano Real de FHC; nado efêmero como a bolha de crescimento inflada pelo câmbio fixo também no governo FHC.
       Diante dessas perspectivas, vale refletirmos: nós, jornalistas, estamos preparados para cobrir uma fase de crescimento sustentado? Em outras palavras: temos a competência para descobrir as verdadeiras pautas que podem refletir uma fase que muitos nunca viveram de verdade?
       Eu mesmo cresci em redações cobrindo economia com base naquelas pautas burocráticas e voltadas aos interesses das fontes: "vamos ouvir a CDL e ver perspectivas de vendas para o Dia das Mães"; "vamos conferir se o preço das flores está alto nesse feriado de Finados"; "vamos ver as expectativas de vendas de Natal com a injeção da primeira parcela do l3.º" etc. etc.
       Sair disso não é fácil, mas é instigante e fascinante. Não tenho fórmulas mágicas nem sei o caminho das pedras, mas acho que a mídia precisa ser mais criativa para essa "cobertura do crescimento". A começar, por exemplo, pelas pautas sobre a qualidade do lixo e o padrão de consumo das pessoas.
       Acho que é superinteressante, por exemplo, descobrir que uma família de baixa renda está consumindo um guaraná "de marca", ao invés daqueles xaropes baratíssimos com nome de refrigerante; que o casal está deixando de fazer piquenique na represa da Petrobrás para passar as férias em Guarapari; que o vendedor de cachorro quente trocou a carrocinha por um Fiat Uno; que aquela casa lá do morro tem churrasco domingo, pois todos que moram lá conseguiram emprego; que a viúva deixou de ir a Aparecida no 12 de outubro e se incorporou a uma excursão a Roma; que...
       Evidentemente que essa fase de recuperação não vai acabar com a miséria do pais, nem garantir emprego para todos. Mas, ainda assim, serão tantas histórias de vida, tantos detalhes, tantos acontecimentos que irão acontecer na rotina de todos que seria uma pena continuar a ouvir apenas o presidente da CDL, da Fiemg, da Ceasa, o Governo etc. etc.
       Quem costuma ler esse espaço sabe que insisto sempre numa questão: a importância de valorizarmos o saber e a vida do cidadão comum. Conseguir fazer dele uma pauta interessante. Sinto que quase ninguém na mídia está preocupado com isso. Mas sempre descubro "exceções". A mais recente se chama "Por um fio", o novo livro do Drauzio Varella. Ele demonstra, com a costumeira simplicidade e competência. que é possível extrair do ser humano e de sua sina as melhores pautas do dia.
*Jornalista e professor de Jornalismo da PUC Minas

Veja também EconomiaNet
Matérias e conceitos de economia, indicadores econômicos, dicionário de economia e outros.
 
E como estamos no campo da comunicação, desde já recomendamos dar uma olhada no portal Infoamérica

Sobre jornalismo econômico e outros
Nossa economia 'sólida' desmancha no ar 
Será que temos competência para cobrir o crescimento econômico? 
O que todo jornalista deveria ser 
Aloysio Biondi e o anti-jornalismo
Entrevista a Aloysio Biondi
A transição no jornalismo econômico
Desenvolvimento e jornalismo econômico
Jornalismo e ambiente econômico competitivo
Jornalismo Econômico: a Sedução do Poder
Mercado neurótico, finança nervosa
Sobre jornalismo econômico
Como a Folha e o Globo se uniram...
Estadão chama especialista para analisar balanço
Palocci em Comandatuba 
As quatro transfigurações da ortodoxia econômica
Audálio Dantas: repórter
Em crise, jornalismo vira profeta do acontecido
A esfinge liberal, o presidente e a mídia
Outro jornalismo é possível?
O açougue econômico
A imprensa e o ministro: relação de fascínio

Exemplos
J. Econômico