Desenvolvimento e jornalismo econômico
 
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Desenvolvimento e jornalismo econômico
Márcio Moreira Alves

Em primeiro lugar, quero observar que os jornalistas brasileiros são os que, no mundo, têm maior intimidade com os termos e os conceitos da economia. É o fruto de décadas de crise e de inflação descontrolada. A mídia brasileira também é a que maior espaço dedica às notícias econômicas.
       Os grandes jornais têm cadernos diários de economia, todos têm colunistas especializados, noticias econômicas são divulgadas pelas rádios e pelos noticiários de TV com grande ênfase. As TVs a cabo têm programas diários de entrevistas econômicas e os responsáveis pela economia no Governo Federal acabam sendo caras conhecidas, se bem que raramente queridas, de vez que não têm dado motivos para serem amados.
       Todos os dias, somos informados do movimento de subida ou descida das cotações nas bolsas de valores do mundo, inclusive de lugares remotos, que temos dificuldades em localizar nos mapas, como Kuala Lumpur ou Cingapura. Essa pletora de informações não acontece em nenhum outro lugar que eu conheça no mundo.
       Pessoalmente, não vejo grande utilidade em saber, logo de manhãzinha, como se comportaram durante o dia as bolsas de Tóquio ou de Hong Kong. Devo ser uma exceção, pois de outra forma as TVs não manteriam esse serviço, que ocupa espaço e custa dinheiro. Aliás, acho que é dinheiro jogado fora, de vez que os raros interessados nessas informações, os operadores do mercado financeiro, são todos assinantes de serviços on-line de agências noticiosas especializadas.
       As décadas de inflação obrigaram os jornalistas econômicos a se familiarizarem com o jargão americano dos economistas. Duvido que um jornalista europeu não especializado saiba o que é overnight, hedge, swap, inflation targeting, sistema cambial de crawling peg, compra de petróleo no spot market de Roterdam, waiver do FMI e outras esquisitices, que são o pão nosso dos nossos repórteres, expressões que são ditas com a maior naturalidade na TV, como se estivessem falando o inglês que o povo entende, que é foul, penalty e corner.
       Os jornalistas políticos também são contaminados pelo imperialismo da economia. Somos obrigados a lidar com os sábios da equipe econômica por que no Brasil, ao contrário dos países do G-7, onde são meros assessores dos governantes, os economistas decidem com grande independência e distanciamento das instâncias políticas.
       A manutenção, por quatro anos e apesar das advertências vindas de dentro do próprio Governo, de ministros, como José Serra e Luís Carlos Bresser Pereira, e de altos funcionários, como José Roberto Mendonça de Barros, secretário de política econômica do ministério da Fazenda, de uma insensata política de endividamento interno e externo, produziu a maior crise econômica da história da República, crise cujas conseqüências os netos dos nossos netos ainda pagarão.
       É a primeira vez, desde a constituição da dívida brasileira inicial, por ocasião do tratado de reconhecimento por Portugal da independência do Brasil, que assumimos encargos sem uma correspondente melhoria nas condições de vida do pais. Não produziu essa política de endividamento um emprego, um quilômetro de estrada, um quilowatt de energia, um hospital. Ao contrário: fecharam-se postos de trabalho, cortaram-se as verbas da educação e da saúde, permitiu-se o sucateamento de boa parte da malha rodoviária e a obsolescência dos laboratórios e centros de pesquisa universitária.
       Portanto, dou aqui a minha resposta à primeira indagação do tema que nos foi proposto: crise econômica, sem dúvida, e de gigantescas proporções, sem que se possa ver com segurança a sua superação. A crise econômica é, também, uma crise do jornalismo econômico?
       Acho que a resposta também é afirmativa. Não considero ter sido bem informado do estado real da economia ao longo dos últimos anos pelos colegas especializados. A débâcle de janeiro de 1999 não foi surpresa para mim, mas não fui prevenido pelos colegas, pelo menos os dos grandes jornais. Já não falo dos que militam em outros tipos de mídia, rádios e TVs, por serem necessariamente mais superficiais e efêmeros. Os anúncios que recebi vieram sobretudo, de políticos com experiência na matéria, como Maria da Conceição Tavares, Delfim Neto e Ciro Gomes, e de jornalistas de órgãos menos difundidos da imprensa escrita ou mesmo através de e-mails, que difundem textos críticos de colegas jornalistas como Marcos Dantas, especialista em telecomunicações, e Aloísio Biondi, feroz adversário das privatizações e da forma como foram feitas.
       Atribuo essa lacuna de informação a algumas razões. A primeira e, talvez, a mais importante, é a ausência de um método de observação participante, como o empregado pelos antropólogos. Os antropólogos desenvolveram a observação participante para estudarem pequenos grupos fechados, geralmente tribos ou sociedades primitivas.
       Trata-se de se inserir na vida do grupo objeto de estudo, notar tudo o que fazem, sem se deixar envolver emocionalmente. Ou seja: o cientista participa de todas as atividades do grupo -maneiras de obter os alimentos, pescando, caçando, plantando, rituais propiciatórios ou de iniciação, as formas de guerrear e de fazer as pazes- além de destrinchar as relações de parentesco e as relações sexuais, tudo isso mantendo um distanciamento essencial à interpretação do que vêem. Só que, para fazer isso, o observador tem de ser aceito no grupo, como se a ele pertencesse.
       Reconheço que é muito difícil, mesmo para os antropólogos, manter o distanciamento essencial à observação participante, estabelecendo uma fronteira entre a participação e o envolvimento. Mais difícil ainda é ser aceito pelo grupo e não ter a tentação de a ele integrar-se verdadeiramente. Margareth Mead, que escreveu o clássico Coming of Age in Samoa, ou Malinowski, autor de Argonauts of Western Pacific, que aplicaram o método, foram criticados pelos colegas.
       Quem estabelece a linha que separa o envolvimento emocional da observação participante? E quem garante que o observador é, realmente, aceito pelo grupo? Esse problemas se colocam nas relações entre os jornalistas e seu objeto de estudo, que é a fechada comunidade dos economistas e, mais fechada ainda, a dos economistas que estão em postos-chave do Governo.
       Os economistas dificilmente aceitam integralmente os jornalistas como membros do seu grupo. Consideram que são detentores de um saber específico e dificilmente alcançável, como acreditavam os sacerdotes egípcios serem interlocutores e intérpretes dos deuses. Logo, não reconhecem nos jornalistas igualdade de conhecimentos, de vez que esse reconhecimento seria a dessacralização de seu saber e a sua vulgarização.
       No entanto, precisam difundir as suas teses e a justificativa das suas políticas para o grande público e, para isso, dependem dos jornalistas. Em conseqüência, procuram com eles estabelecer relações privilegiadas e de confiança. Uma das maneiras de se estabelecer essa confiança é admití-los nos seus ritos propiciatórios, que geralmente tomam a forma de seminários ou de conversas reservadas.
       Os jornalistas, por sua vez, têm necessidade de penetrar nesses círculos estratificados, para colher a matéria de seus artigos. Logo, aceitam a participação e, por vezes, aceitam até fazer segredo das suas fontes, o que é uma violência contra as regras da profissão, que costumam exigir, na redação das notícias, que se diga quem fez ou disse o quê, onde, quando e em que contexto. Há, nesse relacionamento, uma certa interferência da vaidade humana. Os economistas gostam de ter as suas idéias difundidas e usufruem a notoriedade que ganham quando isso acontece. Os jornalistas, pelo seu lado, gostam de ser considerados veículos valorizados dessa divulgação. O perigo mora em assumir como suas as idéias dos outros.
       Coloca-se, nesse ponto, outro problema: o de separar o joio do trigo e de manter o senso crítico. É um problema que envolve outro: o domínio, por parte dos jornalistas, dos conceitos da economia e o conhecimento das fontes acadêmicas que os inspiraram.
       Durante alguns anos, prevaleceu, na imprensa especializada dos países centrais, o que se chamou de "pensamento único", ou seja, as teorias neoliberais postas em prática nos Estados Unidos pelo presidente Ronald Reagan e, na Inglaterra, pela primeiro-ministro Margareth Thatcher. Tratava-se, em essência, de criar renúncias fiscais para os ricos e as grandes empresas, ao mesmo tempo em que se reduziam os déficits públicos cortando os gastos sociais e privatizando as empresas estatais.
       Os americanos tiveram um aumento da desigualdade social, com uma maior concentração da renda; os ingleses sacudiram sem demolir integralmente as bases do seu estado de bem estar social e pulverizaram a propriedade das suas estatais, notadamente a British Petroleum e a British Telecom, vendendo para centenas de milhares de novos acionistas as ações das suas empresas. Hoje, esse pensamento único não existe mais. Politicamente foi contestado pelas vitórias eleitorais do democrata Bill Clinton e do trabalhista Tony Blair. No continente europeu, especialmente na França e na Alemanha, nunca ninguém levou muito a sério o tal pensamento único.
       As vitórias eleitorais dos partidos socialistas em ambos os países foram motivadas, sobretudo, pelo aumento do desemprego causado pela rigidez da política monetária comum, decorrente do Tratado de Maastricht e da implantação do euro.
       A grande imprensa brasileira não deu ênfase aos pontos básicos das novas políticas econômicas vitoriosas e, muito menos, explicou as diferenças entre as privatizações européias e as brasileiras. A falta de informações me obrigou a estudar teoria econômica por vários meses, para poder explicar aos meus leitores, numa série de artigos, as idéias dos principais economistas desde 1930, as suas polêmicas e propostas.
       Essas colunas, necessariamente superficiais e incompletas, tiveram boa acolhida dos leitores e muitos estudantes de economia me pediram permissão para reproduzi-as em apostilas, o que me convenceu de não ser o único a sentir a carência de conhecimentos. Fiz isso, numa coluna sobre política, por não haver encontrado as informações relevantes nas colunas especializadas em economia. O que nos leva a outras lacunas que percebo no jornalismo econômico: a lacuna das informações.
       É muito difícil, mesmo para um especialista, acompanhar a evolução do pensamento econômico nos países centrais, sobretudo nos Estados Unidos e na Inglaterra, onde, em grande parte, ele nasce e é divulgado. Milhares de artigos são publicados todos os anos nas revistas acadêmicas e na imprensa de divulgação econômica. A exagerada formalização matemática desses artigos torna difícil a sua compreensão e árdua a sua leitura.
       Nem os economistas profissionais brasileiros podem garantir que acompanham o estado da arte. Ao contrário: como a pesquisa acadêmica é reduzida no país, o que acontece é que quando voltam de seus doutorados nas grandes universidades americanas, estão mais ou menos a par do estado da arte. Com o passar do tempo, vão se desatualizando. É o que parcialmente explica a continuada vigência no Brasil e nos demais países periféricos, de teorias que se tornaram obsoletas e foram substituídas no centro.
       Infelizmente, essas teorias são as que mais convêm aos mercados financeiros que sejam tomadas por axiomáticas, ou seja, tão imutavelmente verdadeiras que sequer precisam ser provadas. Note-se que em muitos campos, as universidades e centros de pesquisa brasileiros, como na Medicina, na Física Teórica, na Agronomia, nos métodos de exploração do petróleo em águas profundas, na transmissão de grandes blocos de energia a longa distância, etc., já fizeram descobertas e produziram pensamento original.
       Em Economia, nada. Só temos papagaios repetidores. Os jornalistas, que são caudatários das suas fontes, ficam menos atualizados ainda. É como se os engenheiros da Embraer não tomassem conhecimento dos motores a jato e acreditassem que os motores a turbo-hélice fossem os mais modernos do mundo.
       Outra questão crucial é a da linguagem. Além de matemática, os economistas e seus amigos jornalistas precisam saber bem inglês, o que nem sempre acontece e dedicar um imenso tempo para acompanhar ao menos a literatura pontual da matéria: o Wall Street Journal, o Economist, o Financial Times, para não falar dos boletins de análise conjuntural, publicados pelos principais bancos de investimentos, ou de publicações mais sérias, como o Journal of Economic Literature, o Journal of Monetary Economy, o Economic Journal ou mesmo a parisiense Révue Économique.
       Logo: como as fontes são ruins e obsoletas, o que nelas se colhe também é ruim e obsoleto. Há, em virtude dessas carências, uma tendência basbaque: basta aparecer um economista estrangeiro, professor de uma universidade americana de preferência, para darmos enorme destaque às suas observações, como se o visitante conhecesse o Brasil e tivesse credenciais para analisar a complexa economia do único país subdesenvolvido que é plenamente industrializado.
       Em relação às previsões do mercado financeiro então, a basbaquice é patética. Os bancos de investimentos de Nova York têm, todos, um Brazilian desk, geralmente pilotado por um jovem brasileiro saído da pós-graduação de uma grande universidade. Esses rapazes, que muito pouco sabem do Brasil, são ouvidos como oráculos infalíveis. Pessoalmente, deles nunca ouvi uma análise original ou uma idéia que indicassem conhecerem sequer como funcionam as instituições nacionais.
       Finalmente, um último problema: o oficialismo. Um número considerável, talvez majoritário dos jornalistas econômicos, bem como dos demais formadores de opinião, votaram para presidente em Fernando Henrique Cardoso, ao menos na primeira eleição. Era ele quem tinha maior identidade conosco e, portanto, era o candidato que recebia maior confiança.
       Projetávamos nossas esperanças na possibilidade de termos, finalmente, um governo honrado, voltado para a diminuição das injustiças sociais do Brasil, dirigido por um grupo de homens públicos recrutados no nosso meio. Não podíamos imaginar o que aconteceria, não só em matéria de agravamento da situação social, como de complacência com as antigas práticas de privatização dos dinheiros públicos.
       O viés pró-Fernando Henrique parece-me que se estendeu aos seus auxiliares da equipe econômica, fazendo com que os jornalistas econômicos mantivessem por exagerado tempo as viseiras que os impediam de constatar o desastre. Resultado: a crise econômica tornou-se também uma crise do jornalismo econômico.
 

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