Helena Matos, jornalista portuguesa, publicou recentemente, e com grande sucesso, dois livros sobre Salazar, ministro das Finanças e, depois, ditador de Portugal por décadas. No primeiro, “Salazar: a construção do mito”, ela faz um meticuloso levantamento da ascensão do seu personagem, acompanhando-o ano a ano, fato a fato, através da cobertura da imprensa. Salazar, professor da Universidade de Coimbra, assume o Ministério das Finanças em 27 de abril de 1928, como parte do gabinete militar que resultou do golpe de 1926. A situação era de caos econômico e de inadimplência externa. Para aceitar, Salazar pediu apenas que os direitos dos católicos, conquistados até aquele momento, fossem garantidos. Em seu discurso de posse, disse, sem entrar em detalhes: “Sei muito bem o que quero e para onde vou.” O tempo demonstrou a assertiva.
O que chama a atenção na leitura do primeiro livro é algo que, presente até hoje, nunca foi suficientemente sublinhado e destacado: as relações da imprensa com os ministros de Finanças ou seja qual for o nome que adotem os países. Esta é uma relação de fascínio. A imprensa adota, de forma quase sempre automática, as medidas introduzidas por esses ministros como se fossem verdades inquestionáveis e dá a eles todo crédito e todo o tempo possível. Salazar intui e desenvolve de forma magistral suas relações com a imprensa, aproveitando esta relação mágica e sem custo. Implementa as medidas ortodoxas necessárias e realiza, através dos instrumentos de receita e despesa, um rápido e contundente ajuste fiscal, transformando em superávit o déficit e organizando as finanças públicas portuguesas.
O ministro das Finanças vai sendo legitimado pela imprensa e se tornando indispensável nos gabinetes que se sucedem, na opinião pública e entre os militares. Sabe criticar as elites que não se sujeitam à reforma tributária; sabe criticar os políticos e os partidos pela irresponsabilidade fiscal. Respaldado pela opinião pública mobilizada pela imprensa, a cada crise de gabinete confronta-se com os pontos de poder interno e vai ascendendo politicamente. Usa de forma magistral o silêncio e a ausência para ter visibilidade, um expediente bastante estudado décadas depois, por Jacques Seguelá, assessor de imagem de Mitterrand. Ganha, cada vez mais, espaços generosos na mídia. Usa a ironia sempre que confronta para baixo e a coerência técnica sempre que confronta para cima. Explode nas primeiras páginas dos jornais. Alterna as coletivas com os almoços discretos, nos quais a informação é passada sutilmente e vira notícia destacada. Tática esta, aliás, que a sra. Thatcher aplicou tão bem décadas depois, inclusive contra seus próprios ministros.
Salazar aproveita o fascínio que a imprensa tem pelos ministros de Finanças, quando ela toma para si o papel de superego da sociedade, para evitar que a “crítica provoque o caos”. Com isso, as políticas econômicas, enquanto não fracassam rotundamente, ficam fora do espaço da democracia, seus críticos aparecem como irresponsáveis e seu titular como gênio das finanças e da economia. Salazar cria seu próprio calendário de intervenções públicas e a imprensa, docilmente, o acompanha e o exalta na freqüência e na intensidade que o maestro deseja. O que diz passa a ter o dom da infalibilidade. Sua característica ascética evidencia o binômio ética e seriedade. A imprensa cuida de realçar. “Se me seduzisse esta popularidade, tão sedutora e mesmo tão necessária para os homens da política que ambicionam a vã glória de mandar, faria inscrever já, no orçamento, alguns milhões de libras para grandes e brilhantes empreendimentos”, provoca Salazar no início de 1930, acentuando suas diferenças e enfatizando que trabalha para a nação e não para um governo.
Esta linha vai elevando-o acima da política, “sempre rasteira e de curto prazo”. Salazar fala da “política de verdade e da política de sacrifícios” que suas decisões representam e emplaca tantas primeiras páginas quanto as vezes que assim o deseja. Nos bastidores, sabe se movimentar e diz para Assis Gonçalves, seu secretário e confidente nesta fase de ascensão: “Em política, há muitas formas de temperar o caldo, isto é, de tolerar sem transigir.” Mas este seu personagem nunca aflora.
A leitura do trabalho da jornalista Helena Matos é extremamente valiosa. Permite avaliarmos, para os dias de hoje, estas relações que não apenas não mudaram, mas se tornaram mais enfáticas e intensas com o uso da televisão. Assim, a democracia passa — através da cobertura de imprensa dos ministros de Finanças e suas políticas econômicas, especialmente quando estas estão sendo implantadas — a conviver com duas instâncias. Uma, a econômica, onde se impõe a ditadura da informação e onde só existe a verdade dos ministros, quando toda crítica é irresponsável e leva ao desequilíbrio e ao descontrole capaz de afetar a nação, que só o ministro representa. Outra, das demais funções de governo, onde as críticas são abertas, fluem e são generosamente divulgadas sem corte, preliminares ou parti pris . Depois, se vier o desastre, como veio tantas vezes, um véu de desmemória se encarrega de construir a ponte para o novo ministro, a nova política econômica e, de novo, sua infalibilidade.
Valeria a pena pesquisar quantos regimes fortes, verticais ou mesmo ditatoriais foram cristalizados por este tipo de cobertura. Bem, alegremo-nos que este risco é muito pequeno hoje. Mas quantos desastres poderiam ter sido evitados, se a cobertura destes períodos fundacionais das políticas econômicas tivessem direito às mesmas dúvidas de cobertura que têm outros vetores das ações dos governos? O conflito entre as correntes republicanas — democrática e autoritária — teria sido resolvido em Portugal a favor da segunda se houvesse tido uma cobertura menos entusiasta do genial gestor das finanças? Pelo menos, vale analisar para hoje as lições do passado que, no caso, parecem tão presentes.
(*) Prefeito do Rio de Janeiro