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Cobertura fragmentada
A seguir, uma transcrição de reflexões e críticas de Aloysio Biondi sobre o comportamento da mídia:
"A imprensa dá um tratamento absolutamente fragmentado na área da economia. Dá um fato e abandona, dá um fato e abandona. No fundo, o que está por trás é uma concepção do jornalismo: só vale o que foge da 'normalidade'."
"Escrevi um artigo, em 1991, procurando tratar disso, lidando com exemplos fora da economia. Citei o caso dos incêndios dos poços de petróleo do Kuwait, quando falaram que demorariam anos para serem extintos. Eram 900 poços e os incêndios demorariam três, quatro, anos para serem apagados. Dali a três dias 200 poços incendiados já estavam sob controle. Eu era editor-geral e enchia o saco do editor de internacional. Faltava também informação: já se dispunha de materiais modernos para apagar incêndios.
"Durante a crise de petróleo em 1979, falou-se exaustivamente no esgotamento das reservas. Esqueceram-se do desenvolvimento de novas técnicas de exploração (fotografias de satélite, novos métodos de perfuração, novo material - ligas de aço - para as sondas etc.). Quer dizer, se você não acompanha perde totalmente a noção do que está de fato ocorrendo.
"A queda da Bolsa de Nova York em 1989. Tinha subido 40% em pouco tempo e, lógico, deveria cair.
"No caso dos 'Tigres Asiáticos', se você não acompanha perde a visão adequada. Ao longo do tempo a situação deles começou a se deteriorar. Nas minhas matérias eu indicava: não vamos embarcar nessa desse jeito. Quanto a Thatcher, nós demos a queda dela um mês antes por acompanharmos a economia. E estas informações não chegavam aqui.
"Um caso nosso, o da Previdência. O ministro Marcílio Marques Moreira informava sobre o saldo de caixa e o superávit do Tesouro. A cada informação variava o número. O superávit era muito maior porque a previsão de gastos estava superestimada no orçamento. A arrecadação, por exemplo, de Finsocial e Pis estavam em queda brutal. Mas o Imposto de Renda não, havia crescido 100% em relação a 1991. Como é que o leitor vai saber disto se o jornalista não ficar atento?
"No tempo do Maílson, os melhores jornalistas saíam dizendo sobre o 'excesso de gastos com pessoal'. O Maílson fez a cabeça de muita gente. Fez acreditar que 80%, 90% do orçamento era consumido nas despesas com funcionalismo, que o Estado não tinha jeito. Ele fez muito a cabeça da sociedade, até com um certo cansaço mostrando que o 'Estado estava falido'. E todo o mês, o secretário do Tesouro, Luís Antônio Gonçalves dava entrevista e distribuía tabelas. Estava lá: gasto com funcionalismo, e era só você calcular o percentual. Naquele momento os gastos não passavam de 40%. No DCI a gente dava manchete: 'Novo superávit do Tesouro/Gastos com funcionalismo não passam de 40%'."
Sobre imprensa e jornalismo
"A imprensa, ao fazer oposição, esquece de duvidar das notícias ruins. Sempre duvidava, mas só do que é bom. Com isso o jornalista acaba servindo como inocente útil.
"Acho que o jornalismo econômico está muito repetitivo. As pessoas nem checam. Hoje o pretenso pensamento econômico está repleto de chavões, de uma pretensa visão do momento brasileiro e as coisas se repetem. A sensação que você tem, lendo os artigos na diagonal, é que as matérias se baseiam em generalidades e são muito repetitivas. É raro você sair de um artigo achando que ele provocou alguma reflexão e mudou seu ponto de vista.
"Não adianta entrevistar fonte errada. Por exemplo, ouvir economistas que só olham para o mercado financeiro (consultores e analistas), ou agricultores que só choram.
"Um dos problemas do jornalismo de negócios no Brasil é que não tem nada a ver com a economia brasileira. Exame faz apologia de empresários e não aborda o que seria, de fato, uma 'história de negócios'. É muito personalista.
"O jornalista tem a ilusão de fazer oposição só porque fica dizendo que a inflação está alta, ou que o déficit público aumentou, etc. E não percebem quem se beneficia desse processo."
Jornalismo de negócios e privatização
"No chamado jornalismo de negócios, a privatização teve um grande avanço. Havia nessa expansão esse ideal privatizante, do espírito empreendedor. Lembro que a justificativa para se falar mais da empresa era a de que seria uma reação contra a ditadura, uma reação ao fato do Estado ser a grande fonte e o lado do empresário estar sendo deixado de lado. Como sempre, você cai no extremo. Algumas justificativas de pauta, do tipo - valorizar o agente econômico - é mais importante saber o que o 'seo Zé do Botequim' está fazendo do que o Ministro da Fazenda pensa acabam caindo no outro extremo. O ideal é o equilíbrio: ter a vida empresarial e a análise de política econômica."
Vícios e problemas no jornalismo econômico
"Ficou mais rara a preocupação, a dúvida com a versão dos dois lados, com a pesquisa, com a memória. Causas? Não sei. Acho que a ditadura - em relação aos formadores de opinião em geral - era um agente provocador, que mobilizava contra. Numa conversa com Cristovam Buarque. em Brasília, há uns dois anos, ele afirmava que as pessoas tinham perdido certos interesses coletivos e assumido posturas mais individualistas. Ele lamentava a perda da militância tradicional. Não é nada de querer 'guerreiros', mas parece que está em desuso a própria necessidade de tentar mudanças."
Fontes e consultorias
"Em geral, as empresas de consultoria foram formadas por ex-ministros e economistas. Eles continuam sendo ouvidos individualmente. É preciso usar as consultorias de forma correta. Não se deve dar muita importância a eles, e sim selecionar o tipo de informações que geram. Pesquisas por exemplo. É preciso acompanhar, para ver se a tendência aumentou ou diminuiu."
Jornalismo engajado
"Você não ajuda as pessoas com o discurso conservador do Roberto Campos nem com o discurso maniqueísta do Menegueli, que é insuportável. Quando ele criticou a adoção do reajuste semestral, dizendo que era para esvaziar o movimento sindical, eu escrevi na época falando que se o movimento sindical precisa de derrota para sobreviver, que avanço histórico este movimento sindical está fazendo?"
(*) Gerente de Comunicação Externa do Banco do Brasil
e professor do Uniceub-Brasília-DF
