O que todo jornalista deveria ser
 
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ALOYSIO BIONDI (1936-2000)
O que todo jornalista deveria ser
Marcos Dantas

Foi com muita tristeza que li a nota informando a morte de Aloysio Biondi. Em sua homenagem, quero dar um testemunho pessoal.
       Fui jornalista. E fui jornalista enquanto pude ser, com dignidade, um fiel discípulo de Aloysio Biondi. Trabalhei com ele, no Jornal do Commercio, ali por volta de 1973-74. Época braba de ditadura. Época que, no imaginário de hoje, é tida e havida como de total censura e de total silêncio na imprensa. Pois naquele cenário de medo e quase nenhuma chance (aparente) de se escrever outra coisa que não fosse notícia oficial, naquele cenário, Aloysio ensinou-me duas lições básicas.
       A primeira: o jornalista não pode se limitar a publicar o que dizem as chamadas fontes (em "on" ou em "off"), mas está obrigado a pesquisar, a es-tu-dar. Aloysio era um devorador de estatísticas. Estatísticas oficiais. Lia os relatórios do Banco Central, do IBGE, da Cacex, aquela monteira de tabelas e números que, em si, nada significam. E ele mostrava-nos que você não precisa ser "economista", não precisa ser "técnico", para cruzar dados, interpretar números, extrair das tabelas informações que os autores das tabelas pareciam querer nos ocultar. Sim, você precisa, sim, é não ser preguiçoso! Você precisa, sim, é não está disposto a aceitar a primeira explicação que lhe dão. Você precisa, sim, é querer ter um pouco mais de trabalho, na hora de escrever o seu texto, do que simples e facilmente transcrever as anotações das suas conversas do dia, com aspas ou sem aspas.
       Era com base nos próprios números oficiais que Aloysio desmascarava as verdades oficiais, em plena ditadura, em plena era do reinado de Delfim Netto. Claro, você precisa, sobretudo, é ter coragem. Coragem, não para enfrentar ameaças e censura. Isto é fácil. Você precisa de coragem, é para não se corromper com as lantejoulas e purpurinas que a profissão de jornalista, tornando tão fácil o convívio com ricos e poderosos, tornando tão acessível os restaurantes caros e as viagens ao exterior, que essa profissão pode lhe fantasiar. Você precisa, sim, é de coragem para não trocar a verdade por tantas facilidades...
       Esta foi a primeira lição. A segunda, muito mais importante (primeira, aliás, em ordem de importância), relaciona-se ao final, acima escrito. Aloysio defendia uma tese que pude constatar e reconfirmar muitas outras vezes. Em plena a ditadura, ele nos dizia: a pior censura é a autocensura dos editores. Ele definia como nossa meta, testar SEMPRE os limites da censura - não somente os da censura policial mas, sobretudo, os limites da censura dos patrões. Para ele, era proibido dizer-se, ou nos dizer, "não devemos publicar isto, ou aquilo, por que pode dar problema com o boss". Ao contrário: devemos publicar o que acharmos necessário publicar, devemos palmilhar, por assim dizer, "o terreno", avançar sempre na ousadia do noticiário e na "ofensa" aos interesses, até recebermos clara e explicitamente alguma poderosa "advertência". Esta "advertência", quando chegava, não chegava de forma delicada, ou como simples cartão amarelo. Vinha com toda a raiva e virulência de chefões e, sobretudo, chefetes, que, de repente, se davam conta que uma espécie de "guerrilha noticiosa" vinha sendo travada sob seus olhos e narizes...
       Por isso, Aloysio e os que com ele trabalhavam eram uma espécie de ciganos da imprensa. Dificilmente seguíamos empregados por mais de um ano em um jornal qualquer. Mas era este mesmo o projeto: resistir, não apenas a uma ditadura militar, mas ao controle da informação pelos grandes donos da mídia. Se você quer ser jornalista de verdade, você precisa desdenhar o seu emprego, a segurança do salário ano após ano, o medo de enfrentar o mercado de trabalho. É a escolha: ser jornalista ou não passar de burocrata de redação. Este projeto, Aloysio jamais traiu, mas a grande maioria dos que com ele trabalhavam estão aí, hoje em dia, gordos e satisfeitos empregados nesta imprensa de m.... que, há muito tempo, deixou de dar a Aloysio Biondi o espaço, o respeito e o mérito a ele devido. Sabemos todos como foram duros os seus últimos anos.
       Por isto fui jornalista. Na medida em que os outros envelheceram, eu preferi seguir fiel a mim mesmo e fui fazer outras coisas na vida. Fui ensinar às novas gerações o que este país já foi um dia. Um dia, mesmo sob a ditadura, que parecíamos estar mais empenhados no avanço da nossa sociedade do que na versão mais avançada de software...
       Obrigado, Aloysio!

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

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