Um alvissareiro sinal do jornalismo bem-feito foi dado pelo Estadão em 27/4, na reportagem "Prefeitura registrou, em 1996, uma dívida de US$ 8,1 bilhões". O texto, assinado por Fernando Granato, informou que a dívida da Prefeitura de São Paulo aumentou de US$ 6,8 bilhões em 1995 para US$ 8,1 bilhões em 1996. O jornal pediu para a empresa especializada SGV Planejamento e Consultoria Pública e Empresarial analisar o balanço, e o parecer final assinado pelo auditor Hildebrando de Souza Santos.
A análise foi então submetida ao secretário de Finanças José Antônio de Freitas, que não concordou com os números: "Nossa dívida é de US$ 7,2 bilhões, porque não é correto computar nesse cálculo os restos a pagar do ano anterior." O Estadão ficou com a análise do auditor (deveria ter cobrado uma réplica ao argumento do secretário), e a endossou no título da reportagem.
O que há de auspicioso no episódio é o jornal não delegar a repórteres tarefas para as quais eles não estão qualificados. A complexidade de alguns temas, como demonstra a cobertura da CPI dos Precatórios no modelo eu-escrevo-mas-não-tenho-idéia-do-que-é-isto ("Escândalo três em um"), exige cada vez mais consultoria dedicada. Não basta ouvir especialistas para desenrolar as hélices do DNA; é preciso, sobretudo no jornalismo de investigação, que as empresas abasteçam os repórteres com a logística de dados e a intendência de consultorias. As "denúncias", sobretudo quando abordam temas intrincados, exigem consultoria independente e paciente, para a checagem de dados e dicas das fontes.
Em contraste, a rotina tem sido jornalistas escreverem sobre assuntos de que entendem tanto quanto Napoleão entendia de inverno. No fragor do fechamento, repórteres são escalados para desvendar hieróglifos e o resultado é freqüentemente desastroso: erram contas, nas suposições e nas conclusões.
Muitas vezes o palpite de especialistas que não conhecem o caso ou objeto, mas falam em tese e protegidos pelo anonimato, é a muleta para o amadorismo que se arroga a enunciar conceitos, fazer perícias, emitir laudos ou prolatar sentenças. Uma ou duas conversas informais rendem reportagens assertivas sobre o acidente cirúrgico da modelo, o erro do piloto na queda do avião, o desempenho de empresas, o patrimônio de pessoas ou taxas de over night, derivativos, deságios. Após a leitura rápida de documentos ou um telefonema para as "fontes do setor", tira-se a conclusão que uma propriedade vale R$ 10 milhões - e aí está a prova de que o dono enriqueceu ilicitamente. Então o dono põe a propriedade à venda pela metade desse preço e ninguém compra. Um consultor contratado, com a reputação em jogo, seria mais confiável.
Quando recorre a um especialista, dando-lhe tempo e remuneração pelo trabalho, a imprensa segue um caminho profissional - embora mais demorado e dispendioso. No caso específico, a análise de um demonstrativo econômico-financeiro é, no Brasil, tarefa para um Champollion da contabilidade - tantas são as maracutaias que o arsenal de leis fiscais permite e as empresas e governos utilizam na hora de mostrar seus números ao público.
Boletim 14 Março-Abril de 1997
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