» Entrevista
"O Brasil já quebrou em maio"
Entrevistadores: Marina Amaral, Carlos Azevedo, José Arbex Jr., Marco Frenette, João Norro, Ricardo Vespucci, Sérgio de Souza
Caros Amigos, n.º 19, outubro de 1998
Reprodução de excertos

Aloysio Biondi fez parte do grupo de jornalistas que, podemos dizer assim, foram pioneiros na conformação do campo do jornalismo econômico no país. Sempre teve uma postura iconoclasta e independente, sempre desmistificando imposturas. Nesta entrevista, cujas partes reproduzimos, já aponta os desvios da prática do jornalismo da área econômica e financeira, que só estão se consolidando.
Reproduzimos algumas de suas idéias e comentários para que as novas gerações saibam que nem sempre o jornalismo foi isso que estamos vendo aí. Ética, dignidade e independência são a essência dos jornalistas que se prezam.
É nossa homenagem ao digno jornalista, que morreu em 2000.
O nosso entrevistado do mês é o jornalista de economia mais claro e independente do país, por isso o mais temido e menos procurado pelos donos e prepostos dos meios de comunicação. Aloysio Biondi nasceu em Caconde e foi criado em São José do Rio Pardo, São Paulo. Consideras-se "produto direto de Monteiro Lobato", pela identidade nacional, e desde menino aprendeu o que é o jogo de poder. Com dados incontestáveis, ele mostra aqui por que o Brasil chegou ao estado de calamidade econômica. E moral.
Jose Arbex Jr. - Uma vez encontrei com você num supermercado e fiquei impressionado como você sabia o preço de tudo em vários deles. Sabia que no Pão de Açucar a vassoura custava tanto, no Eldorado custava tanto, fiquei impressionado. (risos)
Aloysio Biondi - Até um tempo atrás eu sabia o que estava mais caro no Sé e no Pão de Açúcar. Comprava metade aqui e metade lá. É que fui criado em outro mundo. Além de não desperdiçar, tinha a característica de minha mãe e minhas tias serem órfãs de um médico do povo, que não deixou a família particularmente nadando em dinheiro. E ainda havia aquela indignação contra a exploração das pessoas. Os meus tios italianos sempre tiveram comércio. E aí aprendi que também não se pode acreditar em empresário. Porque meus tios sempre reclamaram, aquele negócio de europeu: "Muito imposto, não sei o quê...". E todo ano só ampliando os negócios. Um tio começou na praça de Caconde com aquela loja que tinha arroz e feijão a granel, enxada, e no fim tinha quase um quarteirão, tecidos, móveis, eletrodomésticos. Você chegava lá: "Tem castiçal?". Ele falava: "Não tem". Mas do primeiro caixeiro-viajante que passasse ele comprava seis castiçais, então tinha tudo. E aprendi que empresário dizia que estava mal mas estava sempre crescendo.
Marco Frenette - O Jânio de Freitas fez um artigo falando da linguagem hermética que os economistas usam, e deu um exemplo, dizendo que lê colunas de economia e só compreende 15 por cento. E a questão que ele levanta é se isso é devido ao fato de ser um assunto realmente complexo, ou existe uma má formação dos economistas, ou ainda se há um complô nas editoras para transformar aquilo numa maçaroca só. Com a sua experiência, como você vê isso?
Aloysio Biondi - Como o que está predominando no noticiário é o mercado financeiro, voltou tudo a ser muito hermético, porque se fala como se o leitor comum estivesse acompanhando as expressões que eles usam e que querem dizer o contrário, mas não precisa ser só na área financeira. O Fernando Henrique, hoje de manhã, falou que vai "alargar a base" dos contribuintes, quer dizer, alargar a base significa aumentar o número de contribuintes. (risos) Se ele aumentar, vai pegar quem ganha menos. Mas vejo as coisas de maneira totalmente diferente. Na década de 60 tinha a história de que você não podia escrever em economês. Até uma vez, eu estava na Veja, em 1969, já tinha saído da Visão, onde fazia matérias de capa contra a política econômica do Delfim, e o Delfim não gostava muito de mim naquela época, e fui para a Veja ser editor de mercado de capitais, uma coisa de que teoricamente eu podia falar, a bolsa estava no auge e tal. E o Roberto Civita começou a insistir que eu assumisse também a editoria de economia. Eu dizia: "Não vai dar certo, porque não vou falar que tem milagre". E ele: "Vai dar, sim" etc. E eu até brincava dizendo que a sorte dos ministros e dos donos de revista e jornal era que o povo não entendia o que estava escrito ali. Quando escrevesse em português... e aí tive a prova disso quando o Banco Mundial recusou um empréstimo para o grupo Hanna fazer um ramal no porto de Sepetiba - que é uma coisa que vai dar de novo uma grande tragédia, porque é totalmente antieconômico - e o governo brasileiro liberou o dinheiro para esse grupo fazer o ramal. Eu sabia que era antieconômico, tinha parecer do Banco Mundial contra, dizendo que a Central do Brasil ia subsidiar a mineradora. E no meu texto abri um travessão só: "subsidiar, isto e, a Central do Brasil vai ter prejuízo para a Hanna ter lucro", e fechei. Na segunda-feira, o Roberto me chamou: "Será que toda semana tenho de abrir a revista e me irritar?" Eu falei: "Ué, vocês dizem que não é para escrever em economês; em segundo lugar, avisei que, quando começasse a escrever em português, as pessoas iam entender e ia ser diferente; em terceiro lugar, também não vou abrir a revista e me envergonhar, então não dá. Volto para o mercado de capitais". E voltei para o mercado de capitais.