Audálio Dantas: repórter
 
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Audálio Dantas: repórter
Elaine Jussara Tomazzoni Tavares
Blog Jornalismo Amoroso e de Libertação, 05/03/2004 08:00


Ainda hoje ele lembra muito bem. Os olhos compridos, das crianças pobrezinhas, para os pães da padaria do seu pai, na pequenina cidade do interior de Alagoas onde nasceu. “Elas vinham, paravam na porta e espichavam os olhos”, conta Audálio Dantas, repórter da boa cepa que fez história nas revistas O Cruzeiro e Realidade. Audálio lembra que foi esse contato amoroso com a diferença o que o fez trilhar, ao longo de sua vida profissional, um olhar social sobre o mundo. Isso sem contar as noites e dias devorando João Cabral de Melo Neto, Jorge Amado e Graciliano Ramos. Garoto ainda, ele descobria o Brasil e suas chagas através de “monstros sagrados” da literatura.
       Quando a adolescência chegou, Tanque D’Arca já era pequena demais para os olhos graúdos de Audálio. Ele queria narrar o mundo, contar histórias, então seguiu o caminho de milhares de outros nordestinos: São Paulo. Aos 19 anos já era repórter da Folha de São Paulo e em pouco tempo entrou para a redação de O Cruzeiro, revista onde começou a experimentar um texto mais saboroso, cheio de impressões e elementos literários. Foi ele quem descobriu Carolina de Jesus, uma moradora de favela que escrevia um diário sobre o mundo que a rodeava e que, depois, acabou virando livro, Quarto de Despejo. É assim que ele descreve a mulher, num dos mais belos textos da Cruzeiro, em junho de 59. “Carolina vive mal, como vivem todos na favela. Profissão, não tem. Apanha papéis nas latas de lixo da cidade. Nem sempre há o que comer (para ela e três filhos menores) no seu barraco. Mas ela aprendeu a ler além da lama da rua e dos barracos escuros: tem o seu mundinho interior, no qual, às vezes, há sol e nuvens coloridas. Escreve versos ingênuos, enche cadernos de sonhos”.
       Foi esse texto poderoso que o levou para a revista Realidade, criada em 1966. Uma publicação que se diferenciava de todas as demais pelo primor do texto. Nela, só cabiam grandes reportagens de primeira qualidade. Era jornalismo de autor, no qual ficava claro que havia um repórter vendo e sentindo cada coisa, bem ao estilo do novo jornalismo proclamado por Truman Capote, Tom Wolf e outros. E foi na Realidade que Audálio escreveu algumas de suas mais belas matérias, sendo o primeiro jornalista a entrar no Juquiri e narrar os horrores do manicômio num texto intimista, carregado de impressões, com descrições chocantes sobre a vida (?) naquele lugar. Chegou ao ápice da experimentação da narrativa num texto antológico, obra-prima, sobre catadores de caranguejo. Neste texto, divide a saga em duas. Uma, que é a dos homens que buscam o caranguejo na lama preta, e a outra, é dos próprios caranguejos que ganham vida sob o olhar genial de Audálio.
       Hoje , com pouco mais de setenta anos, Audálio segue firme, escrevendo e refletindo sobre o Jornalismo. Para ele, jornalista é um especialista em assuntos gerais e não deve andar no mundo de forma onipotente. É só um narrador da vida. Deve ter os pés no chão e buscar sempre o máximo de informação. “O que um jornalista precisa é de um bom arsenal de conhecimento, boas leituras. Quando não conhece algo, nada melhor do que perguntar. Deve se despir da arrogância e se colocar unicamente na condição de profissional bem informado”, diz.
       Não poupa críticas ao jornalismo que se pratica hoje em dia. Diz que a informação é superficial, oficial e está sempre servindo aos interesses de uma minoria. “Os jornalistas são pecadores por falta de conhecimento. Entregam drogas ao povo como os balconistas entregam B.O. (bom para otário) nas farmácias, divulgam apenas o que está na moda, esquecem a realidade”, dispara. Ele lembra que depois do consenso de Washington, que planejou todo um processo de dependência e destruição para os povos do sul do mundo, o Brasil acabou inventando o consenso da mídia, que não questiona, não pergunta, não informa. “Há uma avassaladora campanha neoliberal pela privatização de tudo o que é público e os jornalistas parece que não querem saber dos ¾ da população que não tem dinheiro para pagar por isso”.
       Audálio lembra de alguns outros absurdos como a volta da febre amarela, 60 anos depois de erradicada e diz que não basta fazer reportagem dizendo que isso é absurdo. É preciso responder porque a saúde está mal. “Eu vi divulgado num jornal que só em 1999 foi cortado um bilhão e 800 milhões de reais da saúde. Tá, e daí? Ninguém diz que esse dinheiro foi para o saco sem fundo do FMI. Temos um dos maiores índices de mortalidade infantil da América Latina, 42 mortes por mil nascidos. 24% da população não têm água, 30% não têm esgoto, 75% dos que vivem na zona rural não têm água. Houve um aumento de 47% dos favelados desde a implantação do real. Por que ninguém fala nada, não conta essas histórias?”
       Outra preocupação do repórter Audálio Dantas é com a formação dos futuros jornalistas. Ele percebe que há, nos cursos de Jornalismo, um direcionamento exclusivo para o mercado. “O jornalista não pode sair do curso direto para a Globo, não pode aprender só esse tipo de jornalismo que omite informação, que aliena, que forma para a submissão. Tem uma revista na USP que é paga pela Abril, quem dá a cadeira é o povo da Abril, ou seja , o cara é formado para escrever e se submeter à Abril. Agora me disseram que na UFSC, em Santa Catarina, tem uma Cátedra RBS, é a mesma coisa. Os jovens são ensinados para atender ao mercado. Se o estudante se aliena antes de sair da universidade, então é um sujeito sem salvação. Isso pode ter o seu charme por um tempo, mas é bom ser claro: o cara assim é um alienado”.

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

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