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Elson Rezende de Mello
Revista Avance, Cuenca, Ecuador, n.º 170, enero de 2006
Chama a atenção que seja no início do século XXI que a Bolívia, depois de 180 anos de independência, com população de maioria autóctone, tenha seu primeiro presidente indígena. Evo Morales, da etnia aymará, carrega nas costas esperanças ancestrais, e seus compromissos de campanha não deixam dúvida que caminho pretenderia seguir, a não ser que o fator Lula se faça presente: o que significaria deixar a um lado todos esses compromissos e anseios de mudanças das maiorias para aderir a um sonho de poder vazio, para o qual deve dar continuidade principalmente ao sistema sócio-econômico, em sintonia com o capital financeiro internacional e seus epígonos tupiniquins. Na Bolívia, durante o processo eleitoral, o entusiasmo com o candidato indígena era matizado com certo receio, "sempre e quando Evo não roube a mudança, como Lula fez no Brasil".
Com a vitória de Evo Morales fica cada vez mais patente a chegada de uma certa esquerda aos governos de países latino-americanos. Consagradas nas urnas, as propostas de líderes da esquerda vão ser testadas na prática, no enfrentamento do poder constituído sobre um sistema social essencialmente injusto e desigual. A eleição de Evo Morales seria mais uma etapa no caminho de líderes que pregam a mudança.
Morales por diversas vezes fez discursos em que falava da necessidade de mudanças, mudar a história, refundar o país, como disse ao jornal francês "Le Monde": "Não queremos a democracia representativa, queremos uma democracia participativa, vamos refundar a Bolívia, mudar o sistema político e o modelo econômico".
As dez propostas "para cambiar el país" de Evo Morales e seu vice, Álvaro García Linera, do partido MAS (Movimiento al Socialismo) parecem simples e de necessidade antiga; executá-las sem resistências será una façanha revolucionária. A primeira é a mais explosiva e esteve por trás da caída de Sanchez de Lozada em 2003: hidrocarbonetos e gás. As outras são Assembléia Constituinte, Lei para Autonomias, Plano de Desenvolvimento Produtivo, Lei contra Corrupção e Impunidade, Lei de Austeridade Pública, Lei Terra Produtiva, Seguridade Cidadana, Soberania Nacional, Educação e Cultura
Morales terá que colocar empenho redobrado nas propostas econômicas, que significam interferir no sistema econômico, que geralmente é a área definidora das gestões e das mais delicadas, porque tem implicações em todo o demais. Justamente a exaustão do modelo sócio-econômico - que não consegue atender as necessidades mais prementes de amplas maiorias da população, e que tem significado espoliação dos recursos dos países, no modelo clássico das economias capitalistas -, tem levado ao êxito eleitoral da esquerda latino-americana. E isso pode se transformar em uma armadilha, já que essa exaustão no campo econômico não possui equivalente no plano político, que assim justificaria e facilitaria a posta em prática de todo o ideário sócio-político dos partidos de esquerda.
Pelos déficits seculares que vivem os povos latino-americanos, qualquer governo minimamente comprometido com outra ordem de coisas, que queira implementar algumas das mudanças prometidas a seus eleitores, tem que investir no crescimento econômico de seu país, e isso hoje, no mundo da globalização econômica, significa contar com maiores inversões estrangeiras, que esperam e cobram garantias. Essas garantias quase sempre são manter os fundamentos da economia que vem funcionando e gerando esses déficits que o novo governante quer alterar. Se não atende a essas imposições, o governo fica tolhido em seus empreendimentos e logo, previsivelmente, começa a sofrer as críticas e as pressões de seus eleitores.
Tão pronto isso ocorre, o governo começa a se preocupar com sua sobrevivência. E vai buscar apoio no sistema de poder que há tanto tempo subjuga o país. Apela para a governabilidade.
A governabilidade vem se transformando em uma palavra chave para as forças de esquerda que chegam ao poder. O establishment sabe impor sua terminologia e os valores e ações que pressupõe: governabilidade é um desses termos. Leva os governos a fazerem alianças inimagináveis, pactos, e a não tocar em certos interesses, com o único objetivo de poder seguir. Governabilidade seria o pedágio que os governos pagam às elites para continuarem com o privilégio de não realizarem as plataformas com as quais foram eleitos, para não colocarem em prática as mudanças que prometeram. Para dançarem conforme a música de sempre.
A saída vem a ser fazer o permitido, com muita retórica para divulgar o mínimo que se faz como uma redenção social. Um dos artifícios usados são as comparações entre governos e períodos, como faz o presidente Lula no Brasil, que adora comparar qualquer coisa que realize seu governo com o anterior. Isso lança uma cortina de fumaça para evitar que a população faça cobranças sobre o que foi prometido. A comparação é com o passado, já que esses governos foram eleitos pela redenção do futuro e abdicaram da empreitada, já não têm projeto.
A esquerda cada vez mais fica vítima e dependente de certo marketing político. Para chegar ao governo tem que saber falar com as maiorias segundo as regras do jogo do sistema estabelecido. Esse marketing, esse jogo retórico, não se faz impunemente. Para implementá-lo a esquerda se transforma, para se adequar ao jogo. Com isso, cada vez mais caminha para a direita em termos programáticos, na essencialidade política, embora mantendo o discurso de origem.
Com isso fica dependente do marketing, da propaganda, para seguir governando. Ou seja, dependente do engano.
A esquerda chega ao poder na América Latina e isso não adianta muito. Está tudo sob o controle das elites econômico-financeiras. Como estritamente muitos analistas distinguem: verdadeiramente a esquerda está começando a governar, porém não detém o poder, que está nas mesmas mãos de sempre. Vai governar em nome dos interesses desse poder. Este também é outro nome para governabilidade.
Norman Birnbaum, cientista social e professor da Universidade de Georgetown (EUA), representante da esquerda estado-unidense, afirma que as escolhas dos povos latino-americanos são constantemente ameaçadas pelo setor bancário internacional.
Os partidos de esquerda sempre mantiveram uma desconfiança da democracia representativa; sempre desprezaram os processos eleitorais que, para eles, só tendem a afiançar a democracia representativa "burguesa". Quando facções dessa esquerda, pela via eleitoral e não pela revolução, começam a dirigir países da América Latina a esquerda mais radical se distancia do processo e, em seguida, como que tem sua desconfiança confirmada, quando os governos não realizam as mínimas mudanças que geralmente fizeram parte de seus programas eleitorais, e inexoravelmente se inclinam à direita.
Governos à primeira vista de esquerda já não metem medo nos detentores do poder, que conseguiram comprometê-los com as heranças que recebem. No mundo globalizado, os países se inserem em uma rede de interdependência, que impede sonhos revolucionários, que teriam implicações isolacionistas, insustentáveis hoje em dia. Os governos de esquerda ajudam a dar uma cara mais humana à massa falida do sistema capitalista, ajudam a ser mais suportável o fardo das misérias sociais de nossos países.
Analistas observam que os líderes considerados de esquerda, como Hugo Chávez e Néstor Kirchner, e agora Evo Morales, procuram o apoio do mais conservador dentre eles, Lula, pelas boas relações que este mantém com os EUA de George Bush. A boa relação do Brasil com os EUA funcionaria como uma espécie de airbag para os outros países em suas relações mais conflitantes com o império do Norte.
Depois do fator Lula, não é dado se iludir. No entanto, se Evo Morales pelo menos tentar, não capitular dos anseios do povo a que se deve, a surpresa será comemorada e, fundamentalmente, apoiada.